sexta-feira, 14 de junho de 2013

Quem cala na análise?

Pode-se dizer que André Green foi um dos mais ativos pensadores contemporâneos da clínica psicanalítica. Recentemente falecido, o autor deixou um legado que instiga qualquer analista a repensar sua clínica insistentemente.
 
 Em um texto chamado "O silêncio do psicanalista", o autor sustenta diversas funções e definições acerca do silêncio no enquadre analítico. Faz isso de maneira muito simples e clara, recorre a autores como Nacht e Bion, fala das diferenças conceituais entre as escolas psicanalíticas e seus posicionamentos por vezes divergentes sobre o tema do silêncio.
 
Em minha opinião, Green faz mais do que um passeio pelas abordagens teóricas e pela letra freudiana para discutir e pensar o silêncio. Por enquanto, não falarei o que é este mais, ficarei em silêncio quanto a isso, vou percorrer os caminhos pelos quais o texto de Green fala diretamente para mim, acho que é isso que tenho por obrigação hoje.
 
Inicialmente, Green nos traz a figura de Bion e sua noção de que ao analista caberia ser desprovido de memória e desejo. Para Bion, era isso, o analista deveria ser e contemplar esta noção de que memória e desejo não lhe pertence, deveria estar ali um par, tão somente.
 
Eu gostei do resgate do Bion, da escola inglesa e da memória dos analistas que tinham fama de não serem nada silenciosos. Mas em um texto sobre o silêncio, como podemos articular, falta de desejo e silêncio, se, como o próprio Green afirma, o silêncio pode ser tudo,  pode ser nada, pode ser, inclusive, prenhe de sentido?
 
Isso ficou em mim, como ser um analista sem desejo? Sem memória , vá lá, mas o que me marcou foi mesmo o desejo, ou a necessidade de abdicar dele.  Minha confusão começa e se alimenta das palavras de Green: o analista se comunica infra-verbalmente com seu analisante. O que eu não consigo entender é como o desejo não está aí, neste infra-verbal, neste não dito que não cessa de dizer. Mas, vamos para frente.
 
Nacht dizia que o silêncio, na análise, tem função reparadora. Green vai além, quando afirma que o silêncio no setting "pode significar várias coisas para o analisando, dependendo dos momentos de uma análise ou de uma sessão: fusão, interesse, cuidado atento, cumplicidade, respeito ao discurso, consentimento (quem cala consente), indiferença, sono, rejeição e até mesmo desejo de eliminação deste". (Green, 2004).
 
Durma com um barulho desses! É nesta comunicação que apela, que incide a todo instante ,que o silêncio pode se materializar em fusão -  e acredito que esta função do silêncio seja uma das mais difíceis de sustentar.
 
Quando se trata de interesse, acredito que seja esta a conclusão mais comum, ao menos para o analisante. Calo-me para que possa escutar melhor, é este o ouro da Psicanálise, é esta a diferença básica para a Psicoterapia. O silêncio, nesse sentido, continua-se como cuidado atento, com cada palavra que anteriormente foi dita, e , inclusive, com cada palavra que estava ali, nas linhas silenciosas. Sendo assim, o silêncio como cuidado atento é a permissão que se ganha para embarcar nas palavras - ditas e não ditas - do paciente, sabidas ou não.
 
O silêncio como cumplicidade me lembra Antonino Ferro, quando este diz, em seu texto sobre a técnica da Psicanálise infantil, que ali existe um par que se comunica entre inconscientes. É uma camaradagem que se desenvolve em termos infra-conscientes, seria isso, então? A cumplicidade não é , de maneira alguma, de ordem consciente, sendo, tantas vezes, o contrário: desencontro consciente, e cumplicidade, camaradagem, entendimento ou sintonia inconscientes, mesmo que este último termo -sintonia-  tenha algo de pejorativo, algo que não se relaciona com os termos psicanalíticos.
 
Da camaradagem que se estabelece nessas comunicações sem fala, porém, cheia de sentido, ainda podemos pensar no silêncio como consentimento e como respeito. Para mim, isto corresponde com os tempos bons e o céu limpo ao qual Freud se referia quando falava sobre a situação analítica. Corresponde ao tempo bom e aos primeiros indícios da transferência positiva. O analista é tudo aquilo que pode me acolher e me reparar. E ele sabe o que faz, o que escuta, e sabe exatamente porque cala.
 
Porém, como o próprio Freud nos ensina ao longo deste mesmo texto, as nuvens escuras sempre chegam para estragar um dia de sol: aí o silêncio vira indiferença, sono e rejeição. O que não quer dizer, necessariamente, que seja uma fantasia do paciente. Eis a transferência negativa que irrompe quebrando a pretensa ideia de felicidade entre o par. Seria uma fase tortuosa que põe em teste as riquezas e a utilidade do silêncio.
 
O analista, esse se cala, porque não sou interessante suficiente, não lhe trago sonhos , nem grandes presentes. É isso que permeia a mente inconsciente do analisante, que, vez por outra, questiona indiscretamente o analista: "Você está ouvindo?" "Você está ai"? o que, em última instância significa: "Você me ama?" "Sou um analisante suficientemente interessante?"
 
Acredito que toda essa fase negra no (des) encontro entre analista e analisante nos conduz à última caracterização do silêncio mencionada por Green: o silêncio como rejeição, ou, melhor: como constatação de que o analisante não é bom o suficiente.
 
Ao que parece, ao longo texto, percebemos que nunca iremos tamponar o vazio deixado e causado pelo silêncio. E eu não sei se estamos nos despedindo do nosso desejo, ao silenciar e ao emprestarmos nossos olhos a este empreendimento que se revela nada seguro. O silêncio é a aposta do desejo do analista, seja ele qual for. E eu não sei se um dia deixarei o meu desejo na sala de espera.
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Os seios de Angelina


Não faz muito tempo que o mundo acordou com uma notícia chocante: Angelina Jolie, uma das mais bem pagadas atrizes hollywoodianas fizera uma dupla mastecnomia radical preventiva, Angelina, segundo os médicos, teria quase 90% de chances de desenvolver um câncer de mama, obedecendo um histórico familiar alarmante.


A mega celebridade resolveu divulgar todo o tormento do procedimento doloroso em um artigo no New York Times neste mês. Até então, imaginávamos o mundo mágico de Angelina e seu marido igualmente famoso e igualmente bem pago Brad Pitt e todas as crianças de várias etnias como livres de maiores tragédias e dilemas, nós, mortais e quase sempre mal pagos, nunca imaginamos que Angelina Jolie teria câncer, ou teria medo deste fantasma.


Mas a questão é, apesar de acordar todos os dias bem paga, celebridade, linda, talentosa, Angelina não é diferente de nós, mas é preciso refletir sobre este gesto que vem sendo discutido em todos os cantos do mundo, por diversas áreas do conhecimento e não faríamos diferente aqui, pensemos então.


Desde a revelação do procedimento de Jolie, novos artigos surgem nos jornais e nas revistas cumprindo quase sempre os mesmos objetivos: de um lado os entusiastas, que visam beatificar a atriz, por sua coragem, por sua nobreza, sobretudo quando fala de um dos grandes engodos com os quais temos que lidar, que é a tal da feminilidade, de outro, os ferrenhos críticos que crucificam a atriz, qualificando seu ato como impensado, conectando-o com mais uma bizarrice da atriz famosa que costumava andar com um pingente contendo um pouco do sangue do ex marido pendurado ao pescoço.


Nestes últimos Angelina é chamada de drogada, hipócrita, dentre outros adjetivos nada glamurosos.
 Nos artigos que defendem a atriz, vemos declarações sobre a importância do seu gesto, sobretudo no que refere à advertência feita a muitas mulheres que passariam pelo mesmo drama, outras tantas que convivem com o fantasma do câncer e que, diante das palavras de Angelina, encontrariam conforto e esperança.


 Nosso objetivo, no entanto, não é seguir nenhuma das vertentes, não buscamos aqui tensionar a corda para nenhum dos lados, nosso interesse aqui está centrado no compreender o que significa este ato, esta mutilação preventiva que a atriz altamente bem sucedida resolve fazer ao se deparar com um defeito genético cuja consequência quase certa seria uma doença de difícil manejo e controle.

Mike Adams, editor do famoso site NaturalNews.com, sugere que o artigo de Angelina não pode ser entendido como uma advertência , tampouco deve influenciar outras mulheres do mundo que certamente não teriam dinheiro para pagar o exame (orçado em cerca de 3 mil dólares) para identificar defeitos genéticos que supostamente levariam a uma predisposição ao câncer. 

Em seu artigo, Adams considera um desserviço à sociedade o que Angelina conta em sua revelação, chamando o procedimento de auto-mutilação, o autor sustenta ainda que o câncer não pode ser compreendido como uma doença sem controle, uma vez que nosso estilo de vida  atual é um importante preditor de nossa saúde futura, Adams inclusive alerta para o fato de que muitas pessoas poderiam ter câncer em algum momento, somente ao não levarem uma vida livre dos elementos que já se sabe ter relação com o aparecimento do câncer.


Sendo assim, pensemos, o que fazem as pessoas que não têm acesso a um exame tão sofisticado como Angelina, esperam a morte chegar passivamente? Bem, não sabemos, mas sabemos que muita gente, tendo gene deficiente ou não, desenvolve câncer de mama por ano, e, se Angelina vier a fazer parte desta estatística, ela fará, mesmo que agora, segundo os médicos, o risco doença tenha caído para meros 5%.


Em tempos atuais convivemos em um mundo no qual ideologias fazem parte do passado e no qual o subjetivismo tem imperado em níveis assombrosos. Vivemos de tal modo imersos em nossa psicologia que as guerras civis e os problemas globais perdem força quando se pensa nas pequenas crises cotidianas que vivemos dentro de nossas mentes todos os dias, é  o que se chama de psicologismo maciço. E nem estamos aqui mencionando a ditadura da beleza-juventude-magreza que parece também ser a grande marca da contemporaneidade.


É justamente pensando nestes aspectos que pintam a contemporaneidade como a era da felicidade obrigatória que passamos a compreender o caso dos seios de Jolie, um modelo de mulher para muitos, a personificação pura do tripé beleza-juventude-magreza (e aí acrescente o quarto fator: o dinheiro).
Trocando em miúdos: a sociedade nos obriga a um ideal que, como todo ideal, dificilmente tornar-se-á real, ao menos para algumas pessoas. O interessante é que, como todo ideal, não deixamos de persegui-lo, sejamos nós mulheres ou homens.


 Se as mulheres lotam os consultórios médicos a fim de parecer com Angelina Jolie, também os homens se espelham em Brad Pitt para serem mais, para se parecerem um pouco com o ideal.


Não esqueçamos um dos atributos mais famosos da atriz, antes agora, dos seios: a boca mais pedida nas clínicas estéticas é a de Angelina Jolie, para isso, todo sacrifício é válido: é preciso parecer-se com a grande celebridade, enxertemos então um bocado de silicone nos nossos lábios, pois há que se ser sensual, tal como a Lara Croft. Será que um dia as mulheres pedirão também aos seus médicos “os seios de Angelina, por favor”?


Há quem diga que a mastectomia de Angelina fora um procedimento antiético, ou no mínimo, polêmico: qual médico iria fazer parte de uma automutilação sem que houvesse a mínima perturbação fisiológica? Que médicos compactuariam com a ideia surreal de Jolie em extirpar uma parte sadia de seu corpo somente baseada em riscos estatísticos?

A questão aqui bem que poderia ser esta, mas não é, a questão é que, uma vez feita a tal mastectomia, que pensamos porque alguém tão próxima dos ideais de perfeição ditados por uma sociedade cada vez mais obcecada pela aparência e cada vez menos feliz resolve incorrer em algo tão chocante, tão radical?
Engana-se quem acha que Angelina, por ter extirpado os próprios seios, vem na contramão, vem denunciar a ditadura da beleza e da perfeição: é justamente isso que nos interessa aqui, e parece ser mesmo o contrário.

Não seria em nome da manutenção desse mesmo tripé juventude-beleza-magreza ( e acrescente aí também dinheiro e saúde) que Angelina toma essa decisão? A quem diga, maliciosamente, que Angelina tem tanto dinheiro que poderia muito bem “encomendar” seios mais perfeitos do que os originais.

Respostas a estas questões  sem dúvidas teríamos aos montes, mas sempre me interessei mais pelas interrogações do que pelos pontos finais, a questão é que, a mastectomia radical sem um câncer nos faz pensar sobre um desejo tão antigo, tão pouco contemporâneo: driblar a morte, ultrapassá-la, vencê-la.

Jolie em seu artigo sustenta ainda que não deseja a seus filhos o que ela mesma passou, que não espera que seus filhos percam a mãe tão jovem, ela pensa que tomando esta decisão dará aos seus filhos mais tempo para aproveitá-la. Mas, Angelina teria então o controle sobre quem vive, quem morre?

Não seria pretensão demais a falsa impressão de que, uma vez que se retira o mal pela raiz – literalmente – dribla-se a morte?


Agora me lembrei do famoso filme “O sétimo Selo”, de Bergman, nele, uma cena icônica: um homem joga xadrez com a morte, tentando sempre vencê-la, pois um de seus argumentos é que não perde para ninguém. Angelina estaria assim, jogando xadrez com a finitude, estaria ela pensando que um dia poderia ganhar? Por que não ficar feliz apenas ao competir? Aí é que tá: quem se importa com  “o importante é competir”?
O episódio dos seios de Jolie nos faz atentar para a necessidade humana de eternizar-se, de vencer a invencível, de escapar do real, e Angelina pretende ir além: está para marcar outra cirurgia para retirada dos ovários, o que, parece, diminuirá ainda mais os riscos de câncer. Será a automutilação da atriz suficiente para vencer a morte?

Sabemos que nada disso impede o acontecimento de ocorrer, acontecimento, concebido por Badiou como aquilo que não se prevê, aquilo com o qual não se pode contar. Seria o inesperado, aquilo que não se enxerga.

O Acontecimento, a morte, pegará um por um de nós, e Angelina com sua família multiétnica em suas mansões espalhadas pelo globo, com seu marido lindíssimo e com sua boca carnuda não estará no fim da fila da ceifadora porque arrancara os seios e os ovários.

 E nós precisamos pensar e continuar pensando sobre o que um ato como este revela: a nossa inescapável condição de vítima quando se fala de morte. No fundo, no fundo, Angelina tem medo, é miserável como todos nós, mas talvez pense que sua automutilação comandada pelo tanto de dinheiro que conseguiu acumular ao longo dos seus trinte e sete anos de idade a livre daquilo do qual ninguém se livra.
Certeza, certeza mesmo, só uma: Senhor e Senhora Smith não serão os últimos da fila.