Pode-se dizer que André Green foi um dos mais ativos pensadores contemporâneos da clínica psicanalítica. Recentemente falecido, o autor deixou um legado que instiga qualquer analista a repensar sua clínica insistentemente.
Em um texto chamado "O silêncio do psicanalista", o autor sustenta diversas funções e definições acerca do silêncio no enquadre analítico. Faz isso de maneira muito simples e clara, recorre a autores como Nacht e Bion, fala das diferenças conceituais entre as escolas psicanalíticas e seus posicionamentos por vezes divergentes sobre o tema do silêncio.
Em minha opinião, Green faz mais do que um passeio pelas abordagens teóricas e pela letra freudiana para discutir e pensar o silêncio. Por enquanto, não falarei o que é este mais, ficarei em silêncio quanto a isso, vou percorrer os caminhos pelos quais o texto de Green fala diretamente para mim, acho que é isso que tenho por obrigação hoje.
Inicialmente, Green nos traz a figura de Bion e sua noção de que ao analista caberia ser desprovido de memória e desejo. Para Bion, era isso, o analista deveria ser e contemplar esta noção de que memória e desejo não lhe pertence, deveria estar ali um par, tão somente.
Eu gostei do resgate do Bion, da escola inglesa e da memória dos analistas que tinham fama de não serem nada silenciosos. Mas em um texto sobre o silêncio, como podemos articular, falta de desejo e silêncio, se, como o próprio Green afirma, o silêncio pode ser tudo, pode ser nada, pode ser, inclusive, prenhe de sentido?
Isso ficou em mim, como ser um analista sem desejo? Sem memória , vá lá, mas o que me marcou foi mesmo o desejo, ou a necessidade de abdicar dele. Minha confusão começa e se alimenta das palavras de Green: o analista se comunica infra-verbalmente com seu analisante. O que eu não consigo entender é como o desejo não está aí, neste infra-verbal, neste não dito que não cessa de dizer. Mas, vamos para frente.
Nacht dizia que o silêncio, na análise, tem função reparadora. Green vai além, quando afirma que o silêncio no setting "pode significar várias coisas para o analisando, dependendo dos momentos de uma
análise ou de uma sessão: fusão, interesse, cuidado atento, cumplicidade, respeito
ao discurso, consentimento (quem cala consente), indiferença, sono, rejeição e
até mesmo desejo de eliminação deste". (Green, 2004).
Durma com um barulho desses! É nesta comunicação que apela, que incide a todo instante ,que o silêncio pode se materializar em fusão - e acredito que esta função do silêncio seja uma das mais difíceis de sustentar.
Quando se trata de interesse, acredito que seja esta a conclusão mais comum, ao menos para o analisante. Calo-me para que possa escutar melhor, é este o ouro da Psicanálise, é esta a diferença básica para a Psicoterapia. O silêncio, nesse sentido, continua-se como cuidado atento, com cada palavra que anteriormente foi dita, e , inclusive, com cada palavra que estava ali, nas linhas silenciosas. Sendo assim, o silêncio como cuidado atento é a permissão que se ganha para embarcar nas palavras - ditas e não ditas - do paciente, sabidas ou não.
O silêncio como cumplicidade me lembra Antonino Ferro, quando este diz, em seu texto sobre a técnica da Psicanálise infantil, que ali existe um par que se comunica entre inconscientes. É uma camaradagem que se desenvolve em termos infra-conscientes, seria isso, então? A cumplicidade não é , de maneira alguma, de ordem consciente, sendo, tantas vezes, o contrário: desencontro consciente, e cumplicidade, camaradagem, entendimento ou sintonia inconscientes, mesmo que este último termo -sintonia- tenha algo de pejorativo, algo que não se relaciona com os termos psicanalíticos.
Da camaradagem que se estabelece nessas comunicações sem fala, porém, cheia de sentido, ainda podemos pensar no silêncio como consentimento e como respeito. Para mim, isto corresponde com os tempos bons e o céu limpo ao qual Freud se referia quando falava sobre a situação analítica. Corresponde ao tempo bom e aos primeiros indícios da transferência positiva. O analista é tudo aquilo que pode me acolher e me reparar. E ele sabe o que faz, o que escuta, e sabe exatamente porque cala.
Porém, como o próprio Freud nos ensina ao longo deste mesmo texto, as nuvens escuras sempre chegam para estragar um dia de sol: aí o silêncio vira indiferença, sono e rejeição. O que não quer dizer, necessariamente, que seja uma fantasia do paciente. Eis a transferência negativa que irrompe quebrando a pretensa ideia de felicidade entre o par. Seria uma fase tortuosa que põe em teste as riquezas e a utilidade do silêncio.
O analista, esse se cala, porque não sou interessante suficiente, não lhe trago sonhos , nem grandes presentes. É isso que permeia a mente inconsciente do analisante, que, vez por outra, questiona indiscretamente o analista: "Você está ouvindo?" "Você está ai"? o que, em última instância significa: "Você me ama?" "Sou um analisante suficientemente interessante?"
Acredito que toda essa fase negra no (des) encontro entre analista e analisante nos conduz à última caracterização do silêncio mencionada por Green: o silêncio como rejeição, ou, melhor: como constatação de que o analisante não é bom o suficiente.
Ao que parece, ao longo texto, percebemos que nunca iremos tamponar o vazio deixado e causado pelo silêncio. E eu não sei se estamos nos despedindo do nosso desejo, ao silenciar e ao emprestarmos nossos olhos a este empreendimento que se revela nada seguro. O silêncio é a aposta do desejo do analista, seja ele qual for. E eu não sei se um dia deixarei o meu desejo na sala de espera.
