sábado, 27 de março de 2010

Amor e Bossa Nova



Como diz Jabor e reitera Rita Lee, amor é bossa nova, sexo é carnaval. Se pararmos para pensar só um pouco nesta primeira afirmativa, saberemos qual o tema que hoje é explorado aqui, nesse lugar tão escondidinho, como é o Acheronta.


Sou uma amante da Bossa Nova, conheço seus maiores sucessos, seus hits e maiores intérpretes. Sei o que disseram sobre a Bossa, sei seus pontos altos e os baixos. No entanto, não vim falar do que sei, vim apenas conjecturar sobre o que faz Jabor afirmar tão cheio de si que o amor é Bossa Nova. Vamos aos motivos, porque tudo nesta vida tem uma explicação, a não ser o amor.


POR QUE AMOR É BOSSA NOVA?


1 AMOR: TEMA RECORRENTE: Bossa Nova, dizem, nasceu no compacto Chega de Saudade(1958). De lá para cá, muito ouviu-se sobre "amor", "dor", "violão", "beijo", e todos os outros temas tão simples que fazem sempre parte de alguma canção entoada por João Gilberto ou Tom Jobim.

Nosso primeiro motivo deve ser, devido à utilização de tantos termos que tratam de amor , sendo este o tema recorrente das canções da Bossa, facilmente podemos associá-la a momentos afetivos, momentos com nosso bem.



2 MATERIALIDADE DA NATUREZA DIANTE DO AMOR: Coisas do tipo "violão" "meu pinho", sabiá" , "passarinho", "jardim" tomam vida quando o sujeito (o cantor/compositor da bossinha) está ao lado do seu amor. Desta feita, vide a canção ilustrativa:



Eu sem você

sou só desamor

um barco sem mar

um campo sem flor


[...]


jardim sem luar

luar sem amor


Como se pode perceber em "Samba em Prelúdio", de Toquinho e Vinícius, é o amor que dá vida ao ser que canta, sem ele o pobre não é nada e, quanto à todas as coisas bonitas da natureza, estão desprovidas do elemento que lhe infere maior beleza, ou realce desta, se não há a presença do amor: "campo sem flor, barco sem mar". É mais ou menos uma espécie de antecessor do "Bochecha sem Claudinho" ( cada época tem a música que merece)



3 - A MULHER AMADA, SEMPRE PRESENTE: É comum na Bossa Nova os compositores/cantores renderem homenagens à mulher amada. Eu pessoalmente acho que isso nasceu da galanteria tão aclamada de Vinícius de Moraes, uma pessoa da qual podemos dizer: "esse viveu". Casado inúmeras vezes, namorador convicto e fidelíssimo à instituição Casamento, podemos dizer que foi um pouco de Vinícius que nasceu nas Bossas as quais compôs. O show no Canecão, com a presença e participação de Toquinho, Miúcha e Tom Jobim não me deixa mentir. Eis um trecho falado por Vinícius que faz parte da música "Garota de Ipanema" e explica sua origem:


[...]

Ela se chamava Heloisa Eneida, passava pelo Veloso, vestida de normalista, e a gente fazia pequenos cumprimentos para ela. Linda, como era linda"


Para aqueles da mente mais poluída, podemos imaginar que tipo de cumprimentos eram esses os quais Vinícius menciona e Tom Jobim assente. A própria canção "Garota de Ipanema" é uma ode à mulher, mas não qualquer mulher: a mulher bronzeada, carioca, do corpo bonito e torneado, esta é mulher da Bossa Nova, incrivelmente bela e incrivelmente irresistível, como se não tivesse conhecimento do próprio poder de atração perante os olhos masculinos. Bossa Nova, se não é só amor, pode ser um pouco de luxúria, uma luxúria mais elegante, com tons de samba canção, mas ainda assim, uma luxuriazinha suave, sutil, nada que lembre a famigerada bicicletinha e sua dona precavida.


3- AMOR, ALGO POSITIVO E RECONSTRUÍVEL: Não raramente a Bossa Nova nos deixa face a face com o amor. Já dissemos isso: tudo é amor e o amor é tudo enfim , razão pela qual os organismos vivem, razão pelas quais as células de nossos corpos se reproduzem e morrem. No entanto, vamos especificar que, na Bossa Nova, o amor é possível de ser encontrado, aonde menos se espera, e de repente. Para a turma de Toquinho, Vinícius, Tom e João Gilberto, o amor é coisa possível - esqueçamos Nietszche, esqueçamos Schopenhauer, as canções falam de um amor possível e que deve ser comemorado, posto que encontrado:



Foi então que da minha infinita tristeza,

aconteceu você

encontrei em você a razão de viver e de amar em paz

e não sofrer mais

nunca mais


E mais:


Amor à primeira vista

Amor de primeira mão

É ele que chega, cantando, sorrindo

Pedindo entrada no coração

[...]


Esse tal de amor não foi inventado

foi negócio bem bolado

direitinho pra nós dois

foi ou não foi?



Como a gente pode notar, para a Bossa Nova, é possível, sim, amar. Uns amores acabam, amarelam e caem, mas somente para darem espaço para um novo amor chegar, este sim, já chega cantando, já chega sorrindo, tudo é beleza e é somente o amor que faz os pássaros cantarem, o pinho tocar e o cantor entoar uns "lalalalá". É este o amor para a Bossa Nova, sempre possível de se reiventar, mas o que tem de intenso, ele não tem de misterioso, é fácil, vive em paz e é bonito.
Ao contrário de muitas canções que aclamam os que sofrem de dor-de-cotovelo, a Bossa Nova comemora o amor feliz aquele que faz bem e que permite que os lagos , as luas e os mares tomem forma, cantem, falem.



Eu poderia ir além, citar tantas outras canções, mas como amor não tem explicação, não vou ficar aqui procurando mais razões, mais vale cantar. Entendo Jabor, estou do lado da Rita Lee, entre o carnaval e a Bossa, fico com o amor.

terça-feira, 16 de março de 2010

A fita branca começa aonde Guerra ao Terror termina




Das weisse band no Oscar não foi lá grandes coisas. Das weisse band no Oscar não seria mesmo grande coisa, pois o clima por lá estava mais para Guerra ao Terror do que para reflexões sobre outro grande massacre, não, Das Weisse band não interessou tanto quanto um filme argentino ( Oscar de melhor filme estrangeiro).


Das weisse band ( A fita branca) arrebatou grandes públicos em festivais menos midiáticos do que o de Hollywood, a história , sabemos, não é feita de grandes achados, não há cores ( o filme é totalmente rodado em preto e branco), não há efeitos especiais e também não há muita esperança.


A história se dá no período anterior à eclosão da primeira grande guerra, sendo ambientada numa pequena aldeia, pouco antes de 1914. Ouvimos um narrador , o professor das crianças da aldeia nos relatar tudo o que se passava no dia a dia de uma aparentemente pacada comunidade.


Somos apresentados à história quando do pequeno acidente sofrido pelo médico da aldeia, sujeito frio e desprovido de qualquer sensibilidade a qual deveria ser pré-requisito para o exercício de seu ofício ( isso permanece atualíssimo). Também conhecemos a controlada enfermeira a qual vem ao socorro do médico acidentado. Aos poucos, durante a narrativa , conhecemos um pouco sobre a tensa e gélida relação mantida entre essas duas personagens.


Dirigido por Michael Haneke o filme fala sobre intolerância e, sobretudo, as raizes do mal. Numa época em que se pressentia o desastre macro que se seguiria, o povo de um pacato vilarejo é revelado em suas pequenas e sutis malvadezas, o que nos leva a endossar a leitura que muitos críticos fizeram sobre o filme do cineasta austríaco: A fita branca revela o nascimento do que seria um espírito belicoso reinante na Alemanha ( Bravo!, março de 2010).


Sem dúvida essa leitura é bem apropriada se pensarmos as personagens para além de seus estereótipos: o barão, a baronesa, o filho de ambos, a criança doente mental, o professor, a babá, a parteira e o médico, todos eles se entrelaçam num enredo que demonstra que a natureza humana é o berço de toda e qualquer maldade que um dia possa se tornar uma questão mundial. Acredito que o prório A fita branca seja um filme essencial para ser visto antes mesmo de se pensar em ver algo como Guerra ao Terror - se na fita americana acreditamos no vício da guerra ( apesar de se ver a guerra sempre pelo ângulo do herói americano, diga-se de passagem), em A fita branca vamos além, vamos à gênese da maldade, aquela arraigada ao humano e que exercitamos frequentemente.


A fita branca é um filme tenso ( a fotografia em preto e branco, além de nos convidar à frieza também nos faz relembrar os grandes clássicos do cinema de Hitchcock, estamos à espreita da próxima crueldade), violento mas , sobretudo, sutil. Aparentemente sutileza não combina com violência mas aí é que entra o gênio de Haneke: o autor conseguiu nos deparar com a violência nossa de cada dia sem por isso precisar tirar o nosso chão , sem por isso nos apresentar um mar de sangue.


Há cenas violentas no filme, mas há também meios de se evitar que o filme seja duro. São 144 minutos que passam rapidamente ao passo que nos envolvemos com o cotidiano desta aldeia que parece nos mostrar a porção micro do que veio a se tornar macro. A cada momento da narrativa entendemos mais o contexto sócio-cultural atravessado pelo mundo às vésperas da primeira guerra mundial.


Durante o desenrolar das muits histórias pessoais contadas por Haneke, percebemos que estamos mais perto do terror, mais perto do inevitável, porque somos nós mesmos o abrigo de todo e qualquer ato de intolerância e violência, vamos, aos poucos e em passos curtos, aprendendo que o que acontece na guerra veio num crescendo até eclodir, mas, as origens , estas não nos são tão estranhas.



Acredito que o lugar de A fita branca não era mesmo no Oscar, ele pertence à Cannes ( palma de Ouro no festival). Entende-se que o filme é tenso demais, revelador demais, nos mostra a crueldade sem véus e não teve a pretensão de analisar o espírito da guerra do ponto de vista de um herói ou de uma nação, é por isso, talvez, que o filme não diga muita coisa à Hollywood, ao pessoal da academia.


A fita branca não necessita de um diretor que agradeça o prêmio aos honrados soldados compatriotas, pois o que ele nos mostra é o que, inevitalvemente, buscamos não ver. Enquanto isso, sejam dadas vivas ao filme de Bigelow

sexta-feira, 12 de março de 2010

Perguntando com Neruda



Como agradecer às nuvens essa abundância fugidia?

Onde estão aqueles nomes

doces como as tortas de antigamente?



Como se chama a flor que voa de pássaro em pássaro?

Não é melhor nunca do que tarde?



Pablo Neruda - O livro das perguntas



Escrito pelo poeta chileno e traduzido para o português por Ferreira Gular, O livro das perguntas ( Cosacnaify, 2008) também conta com ilustrações de Isidro Ferrer. O livro aparentamente tão doce e ingênuo é um belo compêndio de perguntas que muito bem poderiam ter saído da boca de crianças inocentes respaldadas por aquela curiosidade infantil que desconserta qualquer adulto.


Fato é que muitas vezes o livro de Neruda é apresentado como um livro infantil devido ao teor das perguntas, muitas delas beiram o lúdico e sinalizam para reflexões filosóficas típicas de qualquer criança de seis anos de idade:


Quantas Igrejas tem o céu?

Por que se suicidam as folhas quando se sentem amarelas?

De que riem a melancia quando a estão assassinando?



No entanto, apesar do tom infantil, estas perguntas nos faz viajar pelo Chile de Neruda, repleto de turbulências políticas, adentrar no mundo surrealista tão bem retratado por Neruda - é muito fácil lembrar de Magritte ao nos depararmos com uma indagação muito pertinente:


Por que o chapéu da noite

voa com tantos buracos?


Serão pássaros ou peixes

presos nas redes da lua?


No Chile foi feita uma edição em que as perguntas do poeta foram respondidas por crianças. Seria interessante que esta edição fosse trazida para o Brasil, afinal poderíamos colocar estes seres curiosos face a enigmas tão complicados como o sorriso do arroz. No entanto, acredito que o livro navegue por uma atmosfera infantil mas que, não necessariamente, delimita-se um público por isto.


Acredito que se nos perguntássemos mais sobre estas questões. Se dedicássemos uns bons minutos para nos indagar, junto com Neruda, sobre as verdades do céu, dos pássaros, das melancias e do azul, certamente estaríamos propensos a entender tantas outras coisas as quais nos são tão enigmáticas. Sinceramente? Vale mais enchermos nossas cabeças de interrogações como estas do que perdermos tempo tentando conjecturar sobre a pretensa verdade da vida.


Recomendo a todos que se peguem questionando o idioma da chuva, a origem dos números e a lentidão da tartaruga. Vale mais.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mover o Acheronte: Um imperativo




Em meados de 2006 comecei eu a pensar em um blog. Não sabia o que escrever, como escrever mas tinha a clara intenção de sublimar. Isso mesmo, através da escrita recorreria àquele modo de funcionamento tão peculiar investigado por Freud o que me tornaria alguém mais leve, mais saudável, mais equilibrada, digamos assim.


Fato é que de lá para cá quase 4 anos se passaram , muita sublimação foi feita, muitos textos escritos, vivências postadas até que um dia, sem mais nem menos, chega-me o aviso: sua conta foi desativada.


Isso mesmo, assim, com esse impacto todo, com palavras tão definitivas que não me permitiam que sequer houvesse um questionamento: " - Mas veja bem, senhor Google, eu não fiz nada, não burlei nenhuma regra deste universo aqui, por favor, não me delete, não faça isso com alguém que tem toda uma vida escrita e rescrita, publicada e editada..."


Não adiantou, Google não quis saber e nem conhecer todo o sentimento envolvido em meu blog, em minha conta de orkut, como se eu fosse qualquer animal rastejante, qualquer réptil ignóbil ou mesmo um indigente desqualificado, matou-me, eliminou-me da vida internética e eu só posso dizer que tudo isso continua sendo um bom motivo para eu voltar a fazer o que eu sempre fiz: sublimar.


Sim, sublimar com arte ou mesmo com alguma atividade socialmente mais aceita a dor e a revolta que sentimos, por exemplo. Sinto-me morta, assassinada, desprendida de meus textos tão simbólicos, tão determinantes, tão meus. Agora sou dona de um blog vazio que aos poucos se encherá de coisas, possíveis reflexões, quem sabe até outras questões aparecerão.


Eis o novo blog, similar, jamais igual. Pretendo - porque não desisto - exercitar minha veia literária e utilizá-la , despudoradamente para o velho fim de sublimar. Porque algumas coisas ainda me doem, porque sinto falta do meu blog, dos meus textos , dos meus desenhos. Foi-se com o vento, não devo chorar, alguém deve dizer, devo eu, ao contrário, encontrar forças, forças estas somente presentes em sobreviventes de enchentes, terremotos e outras tantas tragédias naturais, para reconstruir meu precioso espaço para mover o Acheronta nosso de cada dia.


A vida requer, nós fazemos. Chega de chorar o leite derramado. Que tudo venha de melhor e mais gracioso nesta nova fase, cheirando a novo , mesmo. Página branca, imaculada, segue teu destino, escreve-te!



Que navegue-se o Acheronte!