Não faz muito tempo que o mundo
acordou com uma notícia chocante: Angelina Jolie, uma das mais bem pagadas
atrizes hollywoodianas fizera uma dupla mastecnomia radical preventiva,
Angelina, segundo os médicos, teria quase 90% de chances de desenvolver um câncer
de mama, obedecendo um histórico familiar alarmante.

A mega celebridade resolveu divulgar todo o tormento do procedimento doloroso em um artigo no New York Times neste mês. Até então, imaginávamos o mundo mágico de Angelina e seu marido igualmente famoso e igualmente bem pago Brad Pitt e todas as crianças de várias etnias como livres de maiores tragédias e dilemas, nós, mortais e quase sempre mal pagos, nunca imaginamos que Angelina Jolie teria câncer, ou teria medo deste fantasma.
Mas a questão é, apesar de acordar todos os dias bem paga, celebridade, linda, talentosa, Angelina não é diferente de nós, mas é preciso refletir sobre este gesto que vem sendo discutido em todos os cantos do mundo, por diversas áreas do conhecimento e não faríamos diferente aqui, pensemos então.
Desde a revelação do procedimento de Jolie, novos artigos surgem nos jornais e nas revistas cumprindo quase sempre os mesmos objetivos: de um lado os entusiastas, que visam beatificar a atriz, por sua coragem, por sua nobreza, sobretudo quando fala de um dos grandes engodos com os quais temos que lidar, que é a tal da feminilidade, de outro, os ferrenhos críticos que crucificam a atriz, qualificando seu ato como impensado, conectando-o com mais uma bizarrice da atriz famosa que costumava andar com um pingente contendo um pouco do sangue do ex marido pendurado ao pescoço.
Nestes últimos Angelina é chamada de drogada, hipócrita, dentre outros adjetivos nada glamurosos.
Mike Adams, editor do famoso site NaturalNews.com, sugere que o artigo de Angelina não pode ser entendido como uma advertência , tampouco deve influenciar outras mulheres do mundo que certamente não teriam dinheiro para pagar o exame (orçado em cerca de 3 mil dólares) para identificar defeitos genéticos que supostamente levariam a uma predisposição ao câncer.
Em seu artigo, Adams considera um desserviço à sociedade o que Angelina conta em sua revelação, chamando o procedimento de auto-mutilação, o autor sustenta ainda que o câncer não pode ser compreendido como uma doença sem controle, uma vez que nosso estilo de vida atual é um importante preditor de nossa saúde futura, Adams inclusive alerta para o fato de que muitas pessoas poderiam ter câncer em algum momento, somente ao não levarem uma vida livre dos elementos que já se sabe ter relação com o aparecimento do câncer.
Sendo assim, pensemos, o que fazem as pessoas que não têm acesso a um exame tão sofisticado como Angelina, esperam a morte chegar passivamente? Bem, não sabemos, mas sabemos que muita gente, tendo gene deficiente ou não, desenvolve câncer de mama por ano, e, se Angelina vier a fazer parte desta estatística, ela fará, mesmo que agora, segundo os médicos, o risco doença tenha caído para meros 5%.
Em tempos atuais convivemos em um mundo no qual ideologias fazem parte do passado e no qual o subjetivismo tem imperado em níveis assombrosos. Vivemos de tal modo imersos em nossa psicologia que as guerras civis e os problemas globais perdem força quando se pensa nas pequenas crises cotidianas que vivemos dentro de nossas mentes todos os dias, é o que se chama de psicologismo maciço. E nem estamos aqui mencionando a ditadura da beleza-juventude-magreza que parece também ser a grande marca da contemporaneidade.
É justamente pensando nestes aspectos que pintam a contemporaneidade como a era da felicidade obrigatória que passamos a compreender o caso dos seios de Jolie, um modelo de mulher para muitos, a personificação pura do tripé beleza-juventude-magreza (e aí acrescente o quarto fator: o dinheiro).
Trocando em miúdos: a sociedade
nos obriga a um ideal que, como todo ideal, dificilmente tornar-se-á real, ao
menos para algumas pessoas. O interessante é que, como todo ideal, não deixamos
de persegui-lo, sejamos nós mulheres ou homens.
Se as mulheres lotam os consultórios médicos a fim de parecer com Angelina Jolie, também os homens se espelham em Brad Pitt para serem mais, para se parecerem um pouco com o ideal.
Não esqueçamos um dos atributos mais famosos da atriz, antes agora, dos seios: a boca mais pedida nas clínicas estéticas é a de Angelina Jolie, para isso, todo sacrifício é válido: é preciso parecer-se com a grande celebridade, enxertemos então um bocado de silicone nos nossos lábios, pois há que se ser sensual, tal como a Lara Croft. Será que um dia as mulheres pedirão também aos seus médicos “os seios de Angelina, por favor”?
Há quem diga que a mastectomia de Angelina fora um procedimento antiético, ou no mínimo, polêmico: qual médico iria fazer parte de uma automutilação sem que houvesse a mínima perturbação fisiológica? Que médicos compactuariam com a ideia surreal de Jolie em extirpar uma parte sadia de seu corpo somente baseada em riscos estatísticos?
A questão aqui bem que poderia ser esta, mas não é, a questão é que, uma vez feita a tal mastectomia, que pensamos porque alguém tão próxima dos ideais de perfeição ditados por uma sociedade cada vez mais obcecada pela aparência e cada vez menos feliz resolve incorrer em algo tão chocante, tão radical?
Engana-se quem acha que
Angelina, por ter extirpado os próprios seios, vem na contramão, vem denunciar
a ditadura da beleza e da perfeição: é justamente isso que nos interessa aqui,
e parece ser mesmo o contrário.
Não seria em nome da manutenção desse mesmo tripé juventude-beleza-magreza ( e acrescente aí também dinheiro e saúde) que Angelina toma essa decisão? A quem diga, maliciosamente, que Angelina tem tanto dinheiro que poderia muito bem “encomendar” seios mais perfeitos do que os originais.
Respostas a estas questões sem dúvidas teríamos aos montes, mas sempre me interessei mais pelas interrogações do que pelos pontos finais, a questão é que, a mastectomia radical sem um câncer nos faz pensar sobre um desejo tão antigo, tão pouco contemporâneo: driblar a morte, ultrapassá-la, vencê-la.
Jolie em seu artigo sustenta ainda que não deseja a seus filhos o que ela mesma passou, que não espera que seus filhos percam a mãe tão jovem, ela pensa que tomando esta decisão dará aos seus filhos mais tempo para aproveitá-la. Mas, Angelina teria então o controle sobre quem vive, quem morre?
Não seria pretensão demais a falsa impressão de que, uma vez que se retira o mal pela raiz – literalmente – dribla-se a morte?
Agora me lembrei do famoso filme “O sétimo Selo”, de Bergman, nele, uma cena icônica: um homem joga xadrez com a morte, tentando sempre vencê-la, pois um de seus argumentos é que não perde para ninguém. Angelina estaria assim, jogando xadrez com a finitude, estaria ela pensando que um dia poderia ganhar? Por que não ficar feliz apenas ao competir? Aí é que tá: quem se importa com “o importante é competir”?
O episódio dos seios de Jolie
nos faz atentar para a necessidade humana de eternizar-se, de vencer a
invencível, de escapar do real, e Angelina pretende ir além: está para marcar
outra cirurgia para retirada dos ovários, o que, parece, diminuirá ainda mais
os riscos de câncer. Será a automutilação da atriz suficiente para vencer a
morte?
Sabemos que nada disso impede o acontecimento de ocorrer, acontecimento, concebido por Badiou como aquilo que não se prevê, aquilo com o qual não se pode contar. Seria o inesperado, aquilo que não se enxerga.
O Acontecimento, a morte, pegará um por um de nós, e Angelina com sua família multiétnica em suas mansões espalhadas pelo globo, com seu marido lindíssimo e com sua boca carnuda não estará no fim da fila da ceifadora porque arrancara os seios e os ovários.
E nós precisamos pensar e continuar pensando sobre o que um ato como este revela: a nossa inescapável condição de vítima quando se fala de morte. No fundo, no fundo, Angelina tem medo, é miserável como todos nós, mas talvez pense que sua automutilação comandada pelo tanto de dinheiro que conseguiu acumular ao longo dos seus trinte e sete anos de idade a livre daquilo do qual ninguém se livra.
Certeza, certeza mesmo, só uma: Senhor
e Senhora Smith não serão os últimos da fila.