Não é tão polêmico assim, como parece. Começo trazendo Lacan para me justificar e, mais que, isso, me embasar:
O que, com efeito, constitui o fundo da vida, é que, para tudo que diz
respeito à relação entre os homens e as mulheres, o que chamamos de
coletividade, a coisa não vai, e todo mundo fala disto, e uma grande parte de
nossa atividade se passa a dizer isto
Lacan , Encore, p.46
Em tempos em que palavras como "empoderamento" e "coletividade" são proferidas por todos os cantos, sendo disseminadas como folhas mortas irresistíveis à menor ventania, cabe ressaltar que dentro de um discurso específico, esse discurso analítico que alerta sobre a equivocidade da linguagem , para o deslizamento que caracteriza o campo dos significantes, não faz sentido algum falar em coletividade quando se trata de homens e de mulheres, especificamente sobre relações.
Isso me faz lembrar de uma entrevista que vi com a ótima autora que estuda o feminismo, Camile Paglia, quando ela desconfia de que existe um algo além no discurso de uma vítima de violência por parte de um parceiro amoroso. Ela cita o caso de Rihanna, cantora famosa, bem sucedida, representação contemporânea do que "deveria ser uma mulher de sucesso” que, justificou-se em rede de televisão por perdoar seu controverso par, Chris Brown, dizendo apenas que ele precisava de alguém, que ele precisava ser cuidado.
Como explicar Rihanna? Como fugir à fácil solução do estereótipo materno como se isso fosse tudo o que a Psicanálise tem a dizer sobre uma mulher. Acredito que não devemos tentar explicar Rihanna, não devemos nem tentar absolvê-la nem vitimizá-la, seja qual for o discurso com o qual eu me relaciono, vamos tentar ficar longe de qualquer aparência, de qualquer resposta apressada, mesmo que hoje em dia isso seja quase impossível.
Como empoderar Rihanna? Como fazê-la
a diva de si mesma? Como torna-la alguém que liberta de qualquer opressão
machista como alguns poderiam definir sua relação com o antigo namorado.
Penso que devemos ir além da simples, e muitas
vezes, despreocupada menção de termos da moda para que possamos entender
"coletividade" e "empoderamento" como aquilo que são: nada
mais, nada menos do que significantes, e que estes são apenas definidos por
seus efeitos de significado.
Sendo assim, coletividade e empoderamento o useja
qual for a outra palavra, ela não significa nada sozinha. Coletivizar noções e
fazê-las caber num lugar que não é capaz de comportar nenhum “ideal” é fazer
nada, é ficar batendo a cabeça na parede, ininterruptamente.
Partindo do que diz Lacan, assim, é
impossível empoderar a mulher porque muitos motivos, um deles seria que dar
poder a alguém significa dizer-lhes o que fazer, torna-la protagonista de sua
própria história, torná-la “multiplicadora de si mesma” – outro dia ouvi isso
de pessoas ligadas a uma causa feminista.
Não se pode dar poder a alguém
tentando fixar modelos ou imperativos que são alheios ao que o sujeito é. E isso
significa que ninguém jamais pode receber uma fórmula pronta, um “como ser”.
Curioso é que há uma necessidade de “fazer ver” “fazer o outro enxergar”. Não
sei se isso é possível, não parece ser do ponto de vista psicanalítico, mas
esse é somente mais um discurso, como tantos outros que vigoram por aí....logo,
nada o torna de algum modo aparentado ao que possa ser uma “verdade”, e nisso,
a verdade é democrática: Se não existe para um discurso, tampouco existe para
outros, ela nunca se deixa ver – por ninguém.
Voltando a Rihanna, cabe também
pensar o que significa esse “cuidar” do qual Chris Brown não pode prescindir, o
que é isso que torna essa mulher tão vulnerável a um espancador?
A quem cabe significar o que existe
entre Rihanna e Brown? Ao coletivo? A mim, a você? Aos psicanalistas? Aos feministas?
Não, não cabe a ninguém. Os jargões
midiáticos da vez podem ser fortes e cheios de impacto social, mas não podem
alcançar nenhum lugar além do qual ele realmente pertence: o campo da
linguagem.
“Coletividade” “Empoderamento” “Protagonismo”,
you name it, são apenas significantes
que, sozinhos, não quer dizer absolutamente nada, pois só fazem sentido dentro
de um discurso representante de um liame social, essa ligação, esse liame com o
outro não é outra coisa que a relação que cada mulher mantém com um homem
dentro de uma realidade que também não pode ser outra que não discursiva.
O problema está justamente encrustado
na fácil solução da receita do bolo, em tomar o significante como algo
totalmente desencadeado de um discurso, é tornar o significante pedra, quando
na verdade ele é líquido, escorradio e por isso, perigoso, pois é na queda que
podemos pensar em talvez entender certas relações que se fundam em violência,
em abusos. Tomar o significante como significado é erro, e desse erro podem
nascer as mais terríveis soluções. Ser mulher é ser qualquer coisa dentro de um
discurso que só faz sentido para aquela mulher, por isso o significante não é
arbitrário, mas, ao contrário disso, é perfeitamente encadeado dentro de uma
rede de sentidos que só fazem sentido para uma mulher, o singular jamais será
definido pela invasão coletiva.
Portanto, não vamos conseguir empoderar
Rihanna, também não devemos julguemos “a mulher sem açúcar” que apanha dia útil
e que é alisada em dia santo, tal como Chico a descreveu. E nada disso que estou dizendo significa ser
conivente com qualquer violência – se você entendeu isso, leia de novo, sugiro
recomeçar do começo. Não seremos nós as testemunhas silentes diante do
apedrejamento de Geni. O que estou dizendo estou dizendo a partir de um
discurso que não ignora o inconsciente.
A mulher não existe e qualquer
tentativa de empoderá-la ou coletivizá-la se transforma num redundante
fracasso.

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