sexta-feira, 12 de março de 2010

Perguntando com Neruda



Como agradecer às nuvens essa abundância fugidia?

Onde estão aqueles nomes

doces como as tortas de antigamente?



Como se chama a flor que voa de pássaro em pássaro?

Não é melhor nunca do que tarde?



Pablo Neruda - O livro das perguntas



Escrito pelo poeta chileno e traduzido para o português por Ferreira Gular, O livro das perguntas ( Cosacnaify, 2008) também conta com ilustrações de Isidro Ferrer. O livro aparentamente tão doce e ingênuo é um belo compêndio de perguntas que muito bem poderiam ter saído da boca de crianças inocentes respaldadas por aquela curiosidade infantil que desconserta qualquer adulto.


Fato é que muitas vezes o livro de Neruda é apresentado como um livro infantil devido ao teor das perguntas, muitas delas beiram o lúdico e sinalizam para reflexões filosóficas típicas de qualquer criança de seis anos de idade:


Quantas Igrejas tem o céu?

Por que se suicidam as folhas quando se sentem amarelas?

De que riem a melancia quando a estão assassinando?



No entanto, apesar do tom infantil, estas perguntas nos faz viajar pelo Chile de Neruda, repleto de turbulências políticas, adentrar no mundo surrealista tão bem retratado por Neruda - é muito fácil lembrar de Magritte ao nos depararmos com uma indagação muito pertinente:


Por que o chapéu da noite

voa com tantos buracos?


Serão pássaros ou peixes

presos nas redes da lua?


No Chile foi feita uma edição em que as perguntas do poeta foram respondidas por crianças. Seria interessante que esta edição fosse trazida para o Brasil, afinal poderíamos colocar estes seres curiosos face a enigmas tão complicados como o sorriso do arroz. No entanto, acredito que o livro navegue por uma atmosfera infantil mas que, não necessariamente, delimita-se um público por isto.


Acredito que se nos perguntássemos mais sobre estas questões. Se dedicássemos uns bons minutos para nos indagar, junto com Neruda, sobre as verdades do céu, dos pássaros, das melancias e do azul, certamente estaríamos propensos a entender tantas outras coisas as quais nos são tão enigmáticas. Sinceramente? Vale mais enchermos nossas cabeças de interrogações como estas do que perdermos tempo tentando conjecturar sobre a pretensa verdade da vida.


Recomendo a todos que se peguem questionando o idioma da chuva, a origem dos números e a lentidão da tartaruga. Vale mais.

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