terça-feira, 16 de março de 2010

A fita branca começa aonde Guerra ao Terror termina




Das weisse band no Oscar não foi lá grandes coisas. Das weisse band no Oscar não seria mesmo grande coisa, pois o clima por lá estava mais para Guerra ao Terror do que para reflexões sobre outro grande massacre, não, Das Weisse band não interessou tanto quanto um filme argentino ( Oscar de melhor filme estrangeiro).


Das weisse band ( A fita branca) arrebatou grandes públicos em festivais menos midiáticos do que o de Hollywood, a história , sabemos, não é feita de grandes achados, não há cores ( o filme é totalmente rodado em preto e branco), não há efeitos especiais e também não há muita esperança.


A história se dá no período anterior à eclosão da primeira grande guerra, sendo ambientada numa pequena aldeia, pouco antes de 1914. Ouvimos um narrador , o professor das crianças da aldeia nos relatar tudo o que se passava no dia a dia de uma aparentemente pacada comunidade.


Somos apresentados à história quando do pequeno acidente sofrido pelo médico da aldeia, sujeito frio e desprovido de qualquer sensibilidade a qual deveria ser pré-requisito para o exercício de seu ofício ( isso permanece atualíssimo). Também conhecemos a controlada enfermeira a qual vem ao socorro do médico acidentado. Aos poucos, durante a narrativa , conhecemos um pouco sobre a tensa e gélida relação mantida entre essas duas personagens.


Dirigido por Michael Haneke o filme fala sobre intolerância e, sobretudo, as raizes do mal. Numa época em que se pressentia o desastre macro que se seguiria, o povo de um pacato vilarejo é revelado em suas pequenas e sutis malvadezas, o que nos leva a endossar a leitura que muitos críticos fizeram sobre o filme do cineasta austríaco: A fita branca revela o nascimento do que seria um espírito belicoso reinante na Alemanha ( Bravo!, março de 2010).


Sem dúvida essa leitura é bem apropriada se pensarmos as personagens para além de seus estereótipos: o barão, a baronesa, o filho de ambos, a criança doente mental, o professor, a babá, a parteira e o médico, todos eles se entrelaçam num enredo que demonstra que a natureza humana é o berço de toda e qualquer maldade que um dia possa se tornar uma questão mundial. Acredito que o prório A fita branca seja um filme essencial para ser visto antes mesmo de se pensar em ver algo como Guerra ao Terror - se na fita americana acreditamos no vício da guerra ( apesar de se ver a guerra sempre pelo ângulo do herói americano, diga-se de passagem), em A fita branca vamos além, vamos à gênese da maldade, aquela arraigada ao humano e que exercitamos frequentemente.


A fita branca é um filme tenso ( a fotografia em preto e branco, além de nos convidar à frieza também nos faz relembrar os grandes clássicos do cinema de Hitchcock, estamos à espreita da próxima crueldade), violento mas , sobretudo, sutil. Aparentemente sutileza não combina com violência mas aí é que entra o gênio de Haneke: o autor conseguiu nos deparar com a violência nossa de cada dia sem por isso precisar tirar o nosso chão , sem por isso nos apresentar um mar de sangue.


Há cenas violentas no filme, mas há também meios de se evitar que o filme seja duro. São 144 minutos que passam rapidamente ao passo que nos envolvemos com o cotidiano desta aldeia que parece nos mostrar a porção micro do que veio a se tornar macro. A cada momento da narrativa entendemos mais o contexto sócio-cultural atravessado pelo mundo às vésperas da primeira guerra mundial.


Durante o desenrolar das muits histórias pessoais contadas por Haneke, percebemos que estamos mais perto do terror, mais perto do inevitável, porque somos nós mesmos o abrigo de todo e qualquer ato de intolerância e violência, vamos, aos poucos e em passos curtos, aprendendo que o que acontece na guerra veio num crescendo até eclodir, mas, as origens , estas não nos são tão estranhas.



Acredito que o lugar de A fita branca não era mesmo no Oscar, ele pertence à Cannes ( palma de Ouro no festival). Entende-se que o filme é tenso demais, revelador demais, nos mostra a crueldade sem véus e não teve a pretensão de analisar o espírito da guerra do ponto de vista de um herói ou de uma nação, é por isso, talvez, que o filme não diga muita coisa à Hollywood, ao pessoal da academia.


A fita branca não necessita de um diretor que agradeça o prêmio aos honrados soldados compatriotas, pois o que ele nos mostra é o que, inevitalvemente, buscamos não ver. Enquanto isso, sejam dadas vivas ao filme de Bigelow

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